O vazio da separação

Quando as pessoas procuram um psicólogo trazem demandas diversas ao profissional. Hoje o texto trata do medo do abandono causado pela separação dos casais. Os relatos que se ouve nos consultórios trazem as falas carregadas de dor intensa, de um mundo desmoronando e um vazio devastador. A sensação é de total solidão causada pela perda da pessoa amada. Boa parte das pessoas frisam que aos sábados e domingos a nostalgia aumenta. Ouvindo inúmeras vezes o relato, na psicoterapia, inicia-se a interpretação: Obsessão, dependência ou imagem fixada do objeto atravessada pelas características narcísicas? 

Dizem os pacientes:

— Amo mais esse alguém do que a mim mesmo! 

Amor de si mesmo, para si mesmo ou amor do outro para si. “Aqui Narciso acha feio o que não é espelho?” – parafraseando Caetano Veloso. 

O amor esbarra no narcisismo e ecoa.  

Vale a pena poucas linhas sobre quem é Narciso para correlacionarmos o amor a essa figura. Segundo o mito grego, é um jovem belo que se encanta por sua imagem desenvolvendo uma atração por si mesmo, despertando paixões nas ninfas inclusive a paixão incondicional da ninfa chamada Eco, que recebeu um castigo da Deusa Hera e por isso não consegue comunicar seu amor pelo belíssimo rapaz.  

Sobre narcisismo a psicanálise de Freud sinaliza a existência de dois grupos distintos, na escolha de objeto amoroso, que pode ser o tipo de escolha narcísica e a “de apoio”. A primeira, de acordo com Freud (1910, p.35-36): uma pessoa ama: 1) conforme o tipo narcísico: a) O que ela mesma é (a si mesma), b) O que ela foi, c) O que ela gostaria de ser, d) A pessoa que foi parte dela mesma. 2) Conforme o tipo “de apoio”: a) A mulher nutriz, b) O homem protetor. 

Ainda ressalto a passagem do texto Introdução ao narcisismo (1914), onde Freud (2010) diz sobre a formação do ideal de eu, preciosa perfeição, um processo de troca do narcisismo pela adoração do eu elevado. O eu ideal é a imagem que se tem do próprio eu refletida em outra pessoa. O “eu outro” exige da pessoa uma demonstração de obediência e acatamento. No espelho o eu se forma a partir da imagem do outro. Retrato. Imagem essa que não é da própria pessoa mas daquele que essa pessoa enxerga.  

Narcisismo é uma forma de amar. Amor a si mesmo e amor pelo objeto de amor, isto é, destinar parte da libido para o eu e outra parte para a pessoa amada numa relação harmoniosa. Mas nem todos conseguem imprimir esse ritmo de destinação da libido então a pessoa excede para si mesmo ou para o outro. No texto Luto e melancolia, Freud (2010, p.191) diz: “Mas a melancolia, como vimos, tem algo mais no conteúdo que o luto normal. Na relação com o objeto não é simples, sendo complicada pelo conflito da ambivalência.” A perda do objeto precedida por uma confusão da luta entre o amor e o ódio e uma violenta autocrítica.  

A escolha objetal narcísica é um amor que retorna a si mesmo por meio do outro. O amor que produz um efeito na psique, no interior de si, é contemplativo e traz a promessa da fusão intima com o outro, produzindo a sensação de comunhão íntima e de força. Quando a pessoa ama e vê no outro uma possibilidade de abandono, sofre por medo de perder essa completude que extasia. Há uma imagem do outro (que se vê na mente) que gera esse sentimento de medo da separação. A imagem do outro é tão bela e forte que o paciente angustiado não consegue renunciar a esse amor.

Assim a Eco atua na psique, ecoando, isto é, um som que se repete, causado pela reflexão de ondas sonoras e percebido como um movimento que produz som. O Eco dizendo que as forças devem estar concentradas em conseguir que o relacionamento não termine porque caso isso ocorra seu eu pode se perder.

A própria imagem refletida no outro que é um ser supremo e soberbo. 

A separação pode ser um recomeço quando o sintoma é desvelado e o paciente se empenha no devir e se esforçando para conquista da libido destinada para o eu que preza pela valorização da imagem real. 

Referências

FREUD, S. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. (1914–1916). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Crédito da imagem: BOURDON, G., LAY, S. O Reflexo. São Paulo. Ciranda Cultural, 2011.

1 comentário em “O vazio da separação”

  1. Texto denso e bem elaborado.
    Ótima explicação psicanalítica sobre o nosso medo de perder o outro.
    Não sei que tipo de relação objetal estou investindo nesse texto, mas amei ele .

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