Novelas e psicologia

Laboratórios de afetos e a nova geração

Durante décadas, a telenovela foi um verdadeiro laboratório de afetos e comportamentos, espelhando dores, amores, conquistas e conflitos humanos. Mais do que entreter, ela criou espaços simbólicos de experimentação emocional, nos quais o público pôde compreender dilemas éticos, refletir sobre hierarquias sociais e vivenciar, em rede, as tensões da vida cotidiana.

Com o declínio da TV tradicional e a migração das novas gerações para o ambiente digital, mudou a forma de se relacionar com as narrativas. Hoje, muitos jovens não assistem à novela no horário nobre – mas comentam, compartilham e reinterpretam trechos nas redes sociais, sem contar a paixão por Dorama. O enredo saiu da sala de estar e passou a circular pelo feed.

No passado, as novelas uniam famílias e geravam debates intensos nas casas brasileiras. As opções eram poucas, e as escolhas quase sempre eram mediadas pelos pais. Hoje, o cenário é outro: vivemos num mar de possibilidades, e o risco é justamente se perder nele. As escolhas parecem fáceis, mas, em meio a tantas telas, o corpo denuncia o custo: pescoços curvados, visão periférica reduzida, posturas capturadas.

A compulsão pelas telas ganhou contornos psicológicos claros. Fisher (2022) mostra que a exposição repetida a recompensas imediatas – curtidas, notificações, compartilhamentos – reforça comportamentos automáticos, criando um tipo de dependência comportamental semelhante ao condicionamento de Pavlov.
Guattari (2015), por sua vez, alerta: a subjetividade capitalista fabrica indivíduos protegidos contra acontecimentos que perturbem suas crenças, limitando a reflexão, a crítica, a singularidade.

Nesse contexto, a novela mantém um valor terapêutico e cultural raro. Ela permite externalizar emoções, reconhecer contradições e viver, coletivamente, experiências afetivas. Clássicos como Pecado Capital e Guerra dos Sexos foram verdadeiros palcos de debate emocional, onde o público pôde se confrontar com temas de gênero, poder e desejo – e, de certo modo, se reconhecer. Para a psicologia, essa observação é ouro: as narrativas audiovisuais continuam sendo espelhos da subjetividade, revelando padrões de comportamento, identificação, resistência e desejo.

Quem migrou para as redes sociais agora busca a novela, o laboratório de emoções no feed interativo, onde cada like, comentário ou compartilhamento atua como estímulo psíquico, moldando afetos e modos de existir. Mas agora é uma busca individual, solitária e talvez seja preciso reorganizar algumas relações:

· “Entre um like e outro, aprenda a curtir a si mesmo.”

· “Seu feed é a nova novela: observe, interprete, não seja figurante da própria vida.”

· “Na vida real ou no Dorama, todo personagem tem sombra – inclusive você.”

Em suma, a novela continua viva – não mais na TV da sala, mas nas múltiplas telas onde se encena a vida contemporânea.
Três Graças pode, quem sabe, reencantar o público e recuperar algo essencial: o convívio, a escuta, a emoção partilhada.
Afinal, a teledramaturgia ainda é uma das formas mais potentes de mediar afetos e ensinar sobre a condição humana.

Porque, no fundo, as boas histórias não dão respostas: elas devolvem perguntas.
Em tempos de conselhos fáceis e discursos prontos, talvez valha voltar a uma boa novela.
Ela talvez diga mais sobre você do que imagina.
E se, ao se reconhecer num personagem, você descobrisse o enredo que vem escrevendo sem perceber?

Referências

GUATTARI, Félix. As três ecologias. Tradução de Maria Cristina F. Bittencourt. 3. ed. Campinas: Papirus, 2015.

FISHER, Max. A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. Tradução de Érico Assis. São Paulo: Todavia, 2023.

Novela Guerra dos Sexos. Escrita por Sílvio de Abreu. São Paulo: TV Globo, 06/06/1983-06/01/1984.

Novela Dona Xepa. Autoria: Gilberto Braga. Rio de Janeiro: TV Globo, 24/05/1977-24/10/1977.

Novela Pecado Capital. Autoria: Janete Clair. Rio de Janeiro: TV Globo, 24/11/1975-04/06/1976.

Crédito da imagem: Fernanda Montenegro e Paulo Autran em Guerra dos Sexos, 1983.

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